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Restrição de Crescimento Fetal tardia: o que ganha (e o que não ganha) ao somar biomarcadores ao Doppler

Ultrasound in Obstetrics & Gynecology (UOG)

Publicado em 02 de setembro de 2026

Monitor de aparelho de ultrassom exibindo uma imagem de ultrassonografia obstétrica
Imagem: Goleisureintl, Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

O que é a Restrição de Crescimento Fetal tardia

A Restrição de Crescimento Fetal (RCF) que aparece depois da 32ª semana de gestação - a chamada RCF tardia - é um dos maiores desafios do pré-natal atual: é bem mais comum do que a forma precoce, mas também bem mais difícil de diferenciar de um bebê que simplesmente é pequeno por constituição, sem nenhum risco real associado. As diretrizes internacionais de referência, publicadas pela Sociedade Internacional de Ultrassom em Obstetrícia e Ginecologia (ISUOG) em 2020, já estabeleciam os critérios usados até hoje para essa distinção: peso fetal estimado abaixo do percentil 3, ou abaixo do percentil 10 combinado com alterações no Doppler - como o índice de pulsatilidade da artéria uterina acima do percentil 95 ou a relação cerebroplacentária abaixo do percentil 5.

O estudo: Doppler mais um biomarcador do sangue materno

Um estudo publicado em janeiro de 2025 na revista Ultrasound in Obstetrics & Gynecology (UOG), conduzido pela equipe do BCNatal (Barcelona Center for Maternal-Fetal and Neonatal Medicine), testou se somar um biomarcador do sangue materno a esses critérios de ultrassom melhora a capacidade de identificar quais bebês pequenos realmente correm risco de complicação. A pesquisa acompanhou 602 gestações únicas com diagnóstico de RCF tardia (peso ao nascer abaixo do percentil 10, parto com 34 semanas ou mais), das quais 91 evoluíram com pré-eclâmpsia e 511 não.

Isolado, o biomarcador teve desempenho fraco

O biomarcador estudado foi a razão sFlt-1/PlGF, que mede o equilíbrio entre uma proteína que prejudica a formação de vasos sanguíneos (sFlt-1) e outra que favorece esse processo (PlGF) - um desequilíbrio característico da má formação da placenta. Usado sozinho, o biomarcador teve desempenho fraco: identificou corretamente apenas 39,8% dos casos que teriam algum desfecho perinatal adverso (como necessidade de cesárea de urgência, acidose metabólica ao nascer ou internação em UTI neonatal). Já o modelo tradicional - peso fetal estimado combinado com os dois parâmetros de Doppler - identificou 86,8% desses casos.

Reconstrução em 3D por power Doppler da vascularização da placenta e do cordão umbilical
Imagem: Nevit Dilmen, Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Juntando tudo: a maior taxa de identificação de risco

A notícia real do estudo está no que aconteceu quando os pesquisadores combinaram tudo: peso fetal estimado, Doppler e o biomarcador juntos alcançaram a maior taxa de identificação de risco, 88,5% - um ganho real, ainda que incremental, sobre o Doppler isolado. Um achado mais interessante ainda: nos casos que evoluíram com pré-eclâmpsia, o biomarcador foi o único fator isoladamente associado ao risco de complicação, enquanto nos casos sem pré-eclâmpsia, foram o peso fetal e a relação cerebroplacentária que mais pesaram. Isso sugere que a razão sFlt-1/PlGF pode ajudar especialmente a sinalizar uma pré-eclâmpsia iminente em bebês já identificados como pequenos.

O que dizem os autores - e a nossa leitura

Os próprios autores do estudo são diretos na conclusão: o biomarcador não deve ser usado sozinho para decidir conduta, mas tem valor real como critério adicional ao protocolo já estabelecido de ultrassom e Doppler - não como substituto dele. Na nossa leitura, esse é o tipo de resultado que a prática clínica mais precisa: nem descartar uma tecnologia nova por ainda não ser perfeita isoladamente, nem vender ela como solução definitiva. O Doppler seriado continua sendo a base do acompanhamento de uma gestação com suspeita de RCF, e um biomarcador que soma um ganho real de 86,8% para 88,5% na identificação de risco - especialmente quando ajuda a antecipar pré-eclâmpsia - já justifica seu lugar como ferramenta complementar em casos selecionados.

O panorama no Brasil

No Brasil, um estudo com mais de 174 mil nascidos vivos no estado do Rio de Janeiro em 2021 encontrou uma prevalência de 5,5% de bebês pequenos para a idade gestacional, com mortalidade neonatal claramente maior nesse grupo - o que reforça por que identificar corretamente quais desses bebês estão em risco real, e não apenas confirmar que nasceram pequenos, é uma prioridade concreta do pré-natal também por aqui.

Na Clínica Franco

Aqui na Clínica Franco, em Nova Andradina, o acompanhamento de gestações com suspeita de restrição de crescimento é feito com ultrassom obstétrico com Doppler, incluindo a avaliação seriada do crescimento fetal e do fluxo sanguíneo entre placenta e bebê.

O estudo do BCNatal, a diretriz da ISUOG e o levantamento brasileiro de prevalência citados nesta matéria estão detalhados nas referências abaixo, com links diretos para as publicações originais.

Dr. Rodrigo Franco

Curadoria e revisão médica

Dr. Rodrigo Franco · CRM-MS 10087

Ler a matéria completa em Ultrasound in Obstetrics & Gynecology (UOG)