A atualização da ISUOG em 2022
O ultrassom morfológico é um dos exames mais importantes do acompanhamento pré-natal, e a ciência internacional continua avaliando e atualizando o quanto ele realmente consegue identificar. Em 2022, a Sociedade Internacional de Ultrassom em Obstetrícia e Ginecologia (ISUOG) publicou a atualização de suas diretrizes oficiais para o exame morfológico de segundo trimestre, reunindo o consenso de especialistas de vários países sobre como e quando o exame deve ser realizado.
O que a diretriz recomenda avaliar
Segundo a ISUOG, o exame morfológico de rotina deve ser oferecido a todas as gestantes, idealmente entre a 18ª e a 24ª semana de gestação, e deve avaliar estruturas como o crânio e o cérebro fetal, a face, o coração (incluindo as vias de saída dos grandes vasos), o abdome, os rins e a bexiga, a coluna vertebral, os membros e a placenta. A diretriz reforça que, mesmo com os melhores equipamentos e os profissionais mais experientes, algumas alterações só se tornam visíveis mais tarde na gestação - por isso o acompanhamento contínuo é tão importante quanto o exame em si.
Um estudo brasileiro: sensibilidade de 96%
Quanto à precisão do exame, um estudo brasileiro conduzido no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP), em Pernambuco, acompanhou 457 gestantes de alto risco e comparou os achados do ultrassom morfológico com o diagnóstico confirmado após o nascimento. O resultado: sensibilidade de 96% e especificidade de 79% para a detecção de anomalias congênitas, com desempenho especialmente alto para o sistema nervoso central (99% de sensibilidade) e para alterações da parede abdominal e do sistema cardiovascular (100% de sensibilidade nesses grupos). O próprio estudo destaca que esses números variam bastante entre serviços, dependendo da experiência do examinador e da complexidade de cada caso.
O morfológico de 1º trimestre também importa
Uma revisão sistemática mais recente, publicada em 2024 na revista Ultrasound in Obstetrics & Gynecology, reuniu 52 estudos e mais de 527 mil fetos para avaliar especificamente o ultrassom morfológico de primeiro trimestre (entre 11 e 14 semanas). Os pesquisadores encontraram taxas de detecção muito altas para algumas condições - acrania (98%), gastrosquise (96%) e onfalocele (95%) -, mas taxas bem mais baixas para outras, como fissura labial isolada (14%) e pé torto (11%). A conclusão prática é que nenhum exame isolado detecta tudo: por isso a combinação do morfológico de primeiro trimestre com o de segundo trimestre aumenta significativamente a chance de identificar alterações precocemente, já que cada exame tem pontos fortes diferentes.
Por que recomendamos os dois exames
Na prática, isso reforça por que recomendamos os dois exames - morfológico de primeiro e de segundo trimestre - como parte do acompanhamento pré-natal completo, e não apenas um deles isoladamente. Nenhum exame de imagem substitui o acompanhamento médico contínuo, mas a literatura mostra que a combinação de exames bem indicados, feitos no momento certo da gestação, é o que realmente aumenta a chance de um diagnóstico precoce.
As diretrizes completas da ISUOG, o estudo do IMIP e a revisão sistemática de 2024 estão detalhados nas referências ao final desta matéria, com links diretos para as publicações originais.
